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09 abril, 2012

JOVENS DE CLASSE MÉDIA ALTA ADEREM AO NOVO ESPIRITISMO – Revista época


JOVENS DE CLASSE MÉDIA ALTA ADEREM O NOVO ESPIRITISMO


A religião assume uma face moderna e cresce entre os jovens de classe média. Maior país espírita do mundo, o Brasil já exporta a Doutrina para os Estados Unidos
Martha Mendonça



A Top Model Raica Oliveira, de 22 anos, foi criada na religião espírita. Nascida em Niterói, a namorada do craque Ronaldo mora hoje com a maior parte do tempo do ano em Nova York por conta dos compromissos profissionais. Quando está nos Estados Unidos, Raica vai ao centro Casa São José na cidade vizinha de New Jersey, frequentado por brasileiros como Divaldo Pereira Franco e Raul Teixeira - considerados médiuns pelos adeptos da doutrina.



Raica, Raul e Divaldo são, segundo uma reportagem publicada recentemente no jornal americano The New York Times, as faces visíveis de um novo fenômeno: a abertura de centros espíritas nos Estados Unidos dirigidos por brasileiros, frequentados pela comunidade latina e também por americanos. O Brasil não é apenas o maior país católico do mundo. É também a nação com maior número de espíritas, cerca de 20 milhões de pessoas, segundo os números oficiais. E, agora, tornou-se também o principal pólo difusor da religião fundada e sistematizada pelo frncês Allan Kardec.


Os Espíritas têm renda familiar 150% superior à média nacional

Quais as características desse espiritismo que o Brasil professa e exporta ? pode-se dizer que o rosto de Raica, uma das mulheres mais bonitas do país, é a face-símbolo de uma nova fase na religião. Esqueça os copos que se movimentam sozinhos sobre a mesa branca, as operações com canivete e sem anestesia do médium Zé Arigó e as sessões de exorcismo coletivo transmitidas pelo rádio. Isso tudo ainda existe, mas o crescimento e a exportação da doutrina se devem principalmente a seu lado menos místico e mais racional.



Esse "novo espiritismo" preserva os pilares básicos da religião: a imortalidade do espírito, sua reencarnação e evolução, além da possibilidade de comunicação entre vivos e mortos. mas se baseia muito mais em leituras e na introspecção que em rituais ou sessões que invocam supostas forças do além. São incentivadas também as duas práticas mais fortes da doutrina: a caridade e a tolerância religiosa. O espiritismo vem crescendo no Brasil, principalmente entre jovens de classe média. No site de relacionamentos Orkut, já existem 366 comunidades sobre "espiritismo" e outras 808 quando se busca a palavra-chave "espírita".


77% dos espíritas têm entre oito e 15 anos de estudo, em média dez anos a mais que os católicos

A maior delas se chama simplesmente Espiritismo. tem 183.546 membros. Lá, as discussões variam desde assuntos simples, como o lançamento de um livro, até questões teóricas mais elaboradas, como a relação entre espíritos e Física Quântica. Curiosamente, a palavra "católicismo" registra apenas 34 comunidades, e "católico" 421. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística calcula que a doutrina espírita tem 20 milhões de adeptos no Brasil, afora os que professam o espiritismo como segunda religião. A doutrina cresceu 40% entre os últimos dois censos. Os dados do IBGE mostram que esse crescimento se deu principalmente nos estrados mais ricos e escolarizados da população. A Renda dos Espíritas é 150% superior à média nacional, e 52% deles ganha acima de 5 salários mínimos. Entre os espíritas, 77% têm entre oito e 15 anos de escolaridade, dez anos em média a mais que os católicos.



Além de Raica de Oliveira, outras celebridades vêm aderindo ao espiritismo, embora poucas alardeiem professar a crença. Boa parte prefere tratar o assunto como algo privado. É o caso da atriz Cleo Pires, que herdou a fé do seu pai, o cantor Fábio Júnior, e dos avós maternos. O tenista Gustavo Kuerten recentemente se submeteu a um tratamento espírita, levado por seu fisioterapeuta, Nilton Petrone - o mesmo de Xuxa e Romário.



Sofrendo de dores nos quadris que o derrubaram do primeiro para o 452º lugar no ranking do esporte, Guga, aos 29 anos, recorreu a um tratamento espiritual no Lar do Frei Luiz, centro espírita da zona oeste do Rio. "Foi minha primeira experiência com o espiritismo. Estou mais calmo e equilibrado.", disse Guga à Época. Tecnicamente, o tratamento, ocorrido no dia 10 de junho, não foi uma cirurgia, pois não houve cortes. Guga seguiu o procedimento-padrão do centro. Primeiro, ficou mais de uma hora na sala de orações, com mais de 50 pessoas. Depois, foi com um pequeno grupo para uma sala escura. "O tratamento espiritual não substitui a fisioterapia, apenas a complementa", diz Nilton Petrone.



O novo espiritismo que atrai gente como Raika ou Guga engendrou algo que se pode chamar de "Cultura Espírita". É natural, numa religião em que a leitura prevalece cada vez mais sobre o virtual, que a faceta mais visível dessa cultura sejam os livros. Vários deles atingiram a lista dos best-sellers. Sozinho, o mineiro Chico Xavier, morto em julho de 2002 e considerado o maior dos médiuns pelos adeptos da religião, vendeu (e ainda vende) 25 milhões de exemplares de seus mais de 400 livros, todos supostamente psicografados. Zibia Gasparetto, de 78 anos, já vendeu 5 milhões de exemplares de obras que afirma ter psicografado. Há dez anosnão sai da lista dos dez bet-sellers nacionais. Outro sucesso nas livrarias foi a coletânea de entrevistas Encontro com Médiuns Notáveis, escrita pelo músico e pesquisador Waldemar Falcão. O jornalista Marcel Souto Maior chegou à casa dos 300 mil exemplares nos últimos dez anos, desde que lançou a biografia As Vidas de Chico Xavier. O livro vai servir de base para um filme, com direção de Daniel Filho e lançamento previsto para o ano que vem.
A principal característica da cultura espírita é que ela ultrapassa os adeptos da doutrina e até aqueles que têm o espiritismo como segunda religião. Para além dos livros que fazem sucesso com os leitores de todas as crenças, os programas de televisão que tratam do assunto sempre conseguem uma larga audiência. Trasnmitida até o início deste ano, a novela Alma Gêmea, da TV Globo, teve o melhor Ibope do horário das 6 na última década, impulsionada por uma história de reencarnação. Quando o folhetim foi ao ar, a Globo fez uma pesquisa qualitativa para saber a aceitação do tema entre os espectadores. Mesmo os que não eram espíritas aprovaram enfaticamente a trama e os personagens. Quando terminar sinhá moça, que está no ar com resultados inferiores aos de Alma Gêmea, entrará no ar O Profeta. Nova versão da novela de Ivani Ribeiro dos anos 70, na Tupi. a trama gira em torno de espiritismo e mediunidade. Na nova versão de O Profeta, o protagonista será interpretado pelo ator Thiago Fragoso. "O telespectador gosta de assuntos que o levem a pensar sobre o que somos, para onde iremos", diz Walcyr Carrasco, autor de Alma Gêmea e supervisor da adaptação de O Profeta.


FÉ HERDADA
A atriz Cleo Pires chegou ao espiritismo por influência do pai, Fábio Junior, e dos avós maternos

O diretor-geral do programa Linha Direta, da TV Globo, Milton Ubirached, diz que se assustou com a repercussão dos episódios que tocaram no tema do espiritismo. "No ano passado, a história sobre cartas psicografadas de 13 mortos do Edifício Joelma (Prédio Paulista que pegou fogo em 1974 e deixou 189 mortos) deu 30 pontos de audiência à meia-noite", afirma. Em julho, de olho na curiosidade do público, esse episódios serão reunidos em DVD. Outro programa da série que conseguiu boa audiência relatando um caso curioso. No fim de maio, no município gaúcho de Viamão, região metropolitana de Porto Alegre, uma carta supostamente ditada por um morto ajudou na absolvição da ré Iara Barcelos, de 63 anos, acusada de ser mandante de um crime. O juri ficou sensibilizado pela mensagem, que seria da vítima, o tabelião Ercy da Silva Cardoso. Na carta Ercy afimava a inocência de Yara.
A Cultura Espírita ja chegou aos Estados Unidos. Filmes arrasa-quarteirão como Ghost, de 1990, já mostravam o apelo de temas como a comunicação entre vivos e mortos. Agora, começa a fazer sucesso na televisão americana a série Médium. Nela, uma mulher psicografa mensagens que ajudam a desvendar crimes. A protagonista da série é baseada em uma personagem real, a americana Allison Dubois, cujo livro Não é preciso dizer adeus acaba de ser lançado no Brasil. Citado na reportagem de The New York Times, o espírita Divaldo Pereira Franco, de 79 anos, acredita no crescimento da doutrina nos Estados Unidos, onde começou a fazer palestras em 1962. "Em minha última palestra, em Baltimore, 70% da platéia era de americanos", diz Franco. Em Nova York foram criados dez centros espíritas na últtima década. Em New Jersey, mais seis.
O que explica a adesão crescente da classe média ao espiritismo ? Quem responde é o sociólogo Flávio Pierucci, na Universidade de São Paulo. autor de A Realidade Social das Religiões no Brasil: "O espiritismo é uma religião confortável. Ela suavisa o drama da morte e dá respostas lógicas ao que acontece de bom ou de ruim.



Sem falar que podemos levar créditos ou débitos para outras vidas". Piericci considera que há três razões pelas quais "o novo espiritismo" atrai tantos adeptos entre a classe média:
  1. A Doutrina Espírita se baseia num conjunto de idéias muito bem sistematizado e, portanto, passível de aceitação nacional.
  2. Ela é flexível e acolhe gente de todas as religiões.
  3. A forma original da religião fundada por Kardec de lidar com a questão da morte.
Para entender cada um desses motivos, é preciso fazer um breve histórico da religião espírita. As idéias que alicerçam o espiritismo foram sistematizadas pelo francês Hippolyte Léon Denizard Rivail, nascido em Lyon em 1804. Ele passaria para a história sob o pseudônimo de Allan Kardec - que seria o nome de um druida, supostamente sua encarnação anterior. Nascido em uma família de magistrados católicos, ele decidiu seguir também o caminho da educação e sempre lutou pela democratização do ensino público na França. Em 1854, kardec se interessou pelo fenômeno então conhecido como "mesa giratória". Nos salões elegantes, após os saraus, gente da alta sociedade costumava se sentar em torno dessas mesas para, segundo acreditavam, dialogar com os espíritos. Utilizando recursos supostamente mediúnicos dos presentes, as entidades desencarnadas se manifestariam. Segundo os historiadores, o fenômeno foi a coqueluche da sociedade francesa de 1853 a 1855. Os eventos das mesas giratórias ganharam dezenas de reportagens dos jornais europeus.
Kardec mergulhou nesse universo por três anos, até estruturar uma doutrina que, segundo ele, unia os conhecimentos científico, filosófico e religioso. Ele escreveu sua obra básica, O Livro dos Espíritos, em 1857. O livro é resultado dos diálogos que Kardec afirma ter estabelecido com os espíritos desencarnados nas diversas reuniões mediúnicas de que participou. Kardec não dizia ser médium. Afirmava valer-se de um método científico para conferir a veracidade dos diálogos. Dizia ouvir a voz de diferentes espíritos por meio de diferentes médiuns para cotejar as versões. A obra se estutura em 1.019 tópicos, no estilo pergunta e resposta. O Livro dos Espíritos serviu de base para mais quatro obras de Kardec: O Livro dos Médiuns, O Evangelho Segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno e A Gênese. Como há outras religiões espiritualistas - que creêm na vida além da matéria -, criou-se a expressão "Kardecismo" para diferenciar a doutrina de Kardec das outras. O termo, porém, é considerado errôneo pela Federação Espírita Brasileira (FEB). Chamar o espiritismo de kardecismo é considerado uma redundância. Kardec morreu em 1869, aos 64 anos, e seus livros estão para o espiritismo como o Novo Testamento para os cristãos, a Torá para os judeus e o Alcorão para os mulçumanos.
Quando Kardec codificou sua doutrina, deu-lhe um revestimento científico. É essa roupagem racional o primeiro motivo para o sucesso do espiritismo no mundo moderno. "Razão a fé não estão em polos opostos. Cremos em algo lógico, não místico", diz o presidente da Federação Espírita Brasileira, Nelson Masotti. "Seria difícil seguir uma religião que não estimula a discussão e o conhecimento", diz o engenheiro carioca Ricardo Danziger, de 47 anos, filho de mãe católica, e pai judeu. Toda a sua família - a mulher, Ana Cristina, e os filhos adolescentes, Ricardo e Júlia - professa a religião espírita e frequentam o mesmo centro, o Lar Teresa, no bairro carioca de Copacabana.
Ao contrário do que se possa imaginar, quem entra num centro espírita não vai encontrar médiuns se contorcendo ou sessões de exorcismo coletivo. Centros espíritas são, mais que tudo, espaços de leitura, discussão e prece. Nas reuniões dos espíritas, normalmente há primeiro uma leitura de um dos livros de Kardec. Depois uma palestra em que o participante do centro apresenta suas interpretações sobre algum ponto da doutrina. Por fim, há o passe, momento em que o médium (não necessariamente incorporado) diz trocar energia com os presentes. Ao fundo, oração coletiva e, em muitos casos, luz mais fraca.

TOLERÂNCIA
Raul Teixeira é considerado pelos espíritas um dos maiores médiuns brasileiros. "Quem se degladia com outras religiões mostra falta de maturidade na fé. Quem não crê o suficiente tenta convencer os outros para convercer a si próprio", diz.



A segunda razão para o crescimento do espiritismo é a flexibilidade da doutrina. Avessos a fundamentalismos, hierarquias, sacerdotes, altares e ídolos, os espíritas acolhem pessoas de todas as religiões. Não há exigências na atitude, no vestuário ou cobrança financeira. Adeptos de outras religiões costumam se envolver com o espiritismo sem necessariamente abandonar as crenças originais. "Somos avessos ao fundamentalismo. Dai ser tão importante o estudo e a leitura", afirma o carioca Raul Teixeira, considerado pela Federação Espírita Brasileira um dos maiores médiuns do país. "Quem se degaldia com outras religiões mostra falta de maturidade na fé. Quem não crê o suficiente tenta convencer os outros para convercer a si mesmo." Uma pesquisa realizada pela Federação Espírita Brasileira em São Paulo e no Rio Grande do Sul mostra que apenas um em cada quatro frequentadores de centros se considera oficialmente espírita. "Não temos dogmas, santos, hierarquia. Há respeito por todas as crenças", diz o economista carioca André Menezes Cortes, de 36 anos. nascido em uma família católica, hoje ele é adepto da doutrina de Kardec.
A terceira e principal razão para que o espiritismo tenha tantos adeptos é a maneira como a religião fundada por Kardec lida com a questão da morte. para os espíritas, ela não é o fim de tudo. É possivel ter outras vidas e nelas resolver assuntos pendentes de encarnações passadas. É algo semelhante ao que os budistas costumam chamar de carma, uma espécie de "preço" para nas diversas vidas rumo à evolução espiritual. Para os cristãos, a vida é uma chance única: resolva tudo agora e salvará sua alma - ou arderá no inferno. O Budismo e o induismo admitem a reencarnação. Só o espiritismo, no entanto, diz possibilitar a comunicação entre "encarnados" e "desencarnados". Segundo os espíritas, é possível trocar mensagens orais ou escritas por meio dos médiuns - pessoas que funcionam como antenas entre os dois mundos.
CONVERSÃO
O economista carioca André Menezes Cortes, de 36 anos, nasceu numa família católica. Hoje se diz espírita. "Não temos dogmas, santos, hierarquia, e há respeito por todas as crenças", afirma.



Chico Xavier foi o maior deles. Escreveu mais d 400 livros. Mulato pobre, nascido em Pedro Leopoldo, no interior de Minas Gerais, Chico foi perseguido e investigado desde os anos 30, quando sua fama se alastrou pelo país> Nessa época, ele dizia psicografar textos de escritores e poetas mortos, que guardavam, para espanto geral, incrível semelhança com o estilo original. nas décadas que se seguiram, Chico se tornou referência no mundo do espiritismo. Isso resultou em verdadeiras romarias a sua casa, em Uberaba, em Minas, para onde se mudou em 1959 e onde morou até morrer, aos 92 anos, em 2002.
As obras de Chico Xavier trouxeram imenso consolo ao taxista carioca Gilberto da Silva Netto, de 65 anos. Há algumas semanas, as noites de Gilberto tem sido dedicadas à leitura de Jovens no Além, escrito por Chico Xavier em 1975. O livro tras mensagens supostamente psicografadas por pessoas que perderam a vida cedo, em circunstâncias trágicas. Gilberto é pai de Rodrigo, o Nettinho, guitarrista da banda Detonautas, assassinado num assalto no início de junho no Rio. Católico de formação. Gilberto se define como cético sobre qualquer religião. Mas diz ter se aproximado do espiritismo em busca de respostas.


O MITO
Chico Xavier é uma referência para os espíritas do mundo inteiro. Sua imensa popularidade é uma das razões do crecimento do espiritismo no Brasil.

"Quero acreditar que meu filho está bem, em algum lugar", diz o taxista. Ele também perdeu a mãe de seus filhos, de câncer, há mais de 20 anos. Sua atual mulher, a professora Eliane Perez, que criou Rodrigo desde os 9 anos, é espírita desde jovem e procura acalmar a família depois da tragédia. "Tenho explicado a todos que nada é por acaso. E que algum dia vamos todos nos reencontrar, de alguma maneira", afirma Eliane.
A presença do espiritismo na cultura brasileira vem de longe. Pode-se dizer que dois conjuntos de idéias originalmente francesas - o espiritismo e o positivismo, de onde herdamos o lema "Ordem e Progresso" - encontraram solo fértil no Brasil francólico da virada do século XIX para o XX. Nessa época, o jornalista João do Rio - um adepto do estilo de jornalismo literário que nos anos 60 viria a ser chamado de "new jornalism" pela geração de Tom Wolf e Gay Talese - registrou o frison em torno do espiritismo em seu livro As Religiões do Rio. "Nas rodas mais elegantes, entre os sportsmen inteligentes, lavra o desespero das comunicações espíritas, como em Paris o automobilismo", escreveu João do Rio em um livro em 1904 que acaba de ser relançado no Brasil.
A doutrina de Kardec chegou ao Brasil logo depois de ter sido divulgada no Livro dos Espíritos, por meio de um grupo de franceses que moravam no Rio, então capital do Império. Foi rapidamente absorvida por uma elite. Com o tempo, começaram as primeiras repercussões de supostos eventos mediúnicos e tratamentos espirituais. A partir de 1890, um movimento liderado por médicos, apoiados por juristas, resultou em perseguição ao espiritismo. "De certa forma, naquele momento a doutrina concorria com a medicina", diz a antropóloga Sandra Stohl, autora do livro Espiritismo à Brasileira, baseado em sua tese na Universidade de São Paulo.
Foi o médico Adolfo Bezerra de Menezes, na primeira metade do século XX, quem deslocou o foco da doutrina da ciência para a caridade. Essa ênfase se tornou uma característica marcante do espiritismo brasileiro. Estima-se que meio milhão de pessoas no país recebam ajuda de alguma entidade espírita. A própria Federação Espírita Brasileira iniciou um trabalho social em 1884, ano de sua fundação. Heje ela dá assistência a aproximadamente mil famílias, além de manter uma creche para 800 crianças na cidade de Santo Antônio do Descoberto, em Goiás.
As Casas André Luiz, de São Paulo, atendem pacientes pacientes com problemas de saúde mental - 630 em regime de alojamento e 800 em regime ambulatorial. A assitência se estende à familia do doente, já que quase todos os pacientes são muito pobres. Divaldo Pereira Franco, aquele que também atua nos Estados Unidos, mantém em Salvador a Mansão do Caminho. Desde 1947, a entidade já prestou atendimento médico e odontológico a mais de 30 mil pessoas. vivemos num mundo cada vez mais competitivo, em que muitas vezes a caridade é deixada em segundo plano. A época atual é também de recrudescimento de fundamentalismos que sufocam a liberdade religiosa. Num tempo assim, a acolhida cada vez maior da mensagem espírita, fundamentada na tolerância e solidariedade, é um fato a comemorar.
RACIONALIDADE
"Seria difícil seguir uma religião que não estimula a discussão e o conhecimento", diz o engenheiro carioca Ricardo Danziger, de 47 anos. Sua mulher, Ana, e os filhos, Ricardo e Júlia, também são espíritas.
A verdadeira felicidade reside na conquista

dos tesouros imperecíveis da alma.

07 outubro, 2011

ESPRITISMO SIM, MAS DE QUE FORMA?

A APLICAÇÃO DO ESPIRITISMO




Emmanuel



Queridos irmãos, lembremo-nos sempre de que o Espiritismo:

VISTO, pode ser somente fenômeno;

OUVIDO, pode ser apenas consolação;

VITORIOSO, pode ser somente festividade;

ESTUDADO, pode ser apenas escola;

DISCUTIDO, pode ser somente sectarismo;

INTERPRETADO, pode ser apenas teoria;

PROPAGADO, pode ser somente movimentação;

SISTEMATIZADO, pode ser apenas filosofia;

OBSERVADO, pode ser somente ciência;

MEDITADO, pode ser apenas doutrina;

SENTIDO, pode ser somente crença.

Não nos esqueçamos porém de que ESPIRITISMO APLICADO, é Vida Eterna com Eterna Libertação.

A codificação trouxe ao mundo uma chave gloriosa, cuja utilidade se adapta a numerosas portas.

Escolhamos com o Apóstolo, que hoje recordamos, o caminho da aplicação:

TRABALHO, SOLIDARIEDADE, TOLERÂNCIA.

De coração elevado a Jesus, não temos por agora divisa mais nobre a recordar.

Vivei-a na fé consoladora.

Espiritismo é Sol. Brilhai na sua luz.







Clique aqui para ler mais: http://www.forumespirita.net/fe/outros-temas/espiritismo-sim-mas-de-que-forma/#ixzz1a5njIr1H

01 fevereiro, 2011

"O espiritismo é o ar que respiro", diz Robson Pinheiro




O escritor Robson Pinheiro concede entrevista esclarecedora e responde aos seus críticos com determinação: "Como nosso compromisso é com o espiritismo — e não com os espíritas ou com a leitura que muitos fazem do espiritismo —, considero-me fiel ao mandato a mim confiado."  (Nas imagens, Robson Pinheiro detalhe da capa do livro Legião, de sua autoria)

(Entrevista a Manoel Fernandes Neto)

Por que alguns irmãos do movimento espírita classificam seu trabalho de umbandista e não doutrinário? Você pode comentar esta questão? 

Primeiramente, é preciso esclarecer que umbandista não se opõe a doutrinário, se entendermos doutrinário como atinente ao espiritismo. Afinal, um trabalho pode ser coerente com a doutrina de umbanda, e não com a doutrina espírita.

No meu caso, entretanto, não conheço acerca de doutrina de umbanda, nem tampouco qualquer linha de meus livros versam sobre esse tema. Ou seja, nem eu conheço o assunto nem os espíritos que escrevem através de mim abordam doutrina umbandista. Afinal, sou espírita, minha formação é espírita e o compromisso meu e dos espíritos que me dirigem é com o espiritismo. E aí a questão proposta esbarra em algo maior, para o qual devo me alongar a fim de procurar ser mais claro.

Ocorre que, para a certa surpresa de Allan Kardec, muitos de seus adeptos acabaram por delimitar assuntos para o debate ou o olhar espírita, baseando-se em uma perspectiva estreita e, com isso, separando temas e abordagens em compartimentos estanques — doutrinário ou antidoutrinário —, à medida que se desenvolvia o movimento espírita. Imagine, um homem que foi porta-voz de uma revelação que, segundo ele, pretendia contribuir para o esclarecimento de qualquer religião, sem constituir necessariamente uma religião à parte![1] Como esse homem poderia ser um purista, alguém que não desejasse versar sobre quaisquer temas por meio da ótica espírita, das lentes e ferramentas que o espiritismo oferece?

Essa é a leitura que faço da atitude kardequiana, que perpassa todos os seus escritos. Repare a obra de sua autoria chamada Catálogo racional para se fundar uma biblioteca espírita, que a Madras Espírita traduziu pela primeira vez, na época do saudoso Eduardo Carvalho, e a feb hoje publica na coletânea de opúsculos denominada O espiritismo em sua mais simples expressão. Naquele Catálogo, Kardec inclui uma categoria inteiramente dedicada aos livros “produzidos fora do espiritismo”, bem como outra destinada às obras contrárias à doutrina nascente. Em minha opinião, isso denota o interesse por todos os temas, a certeza de que o debate espírita não precisaria se restringir a este ou aquele tema, mas ampliar-se o máximo possível.

O que quero dizer com tudo isso é que livros meus como Tambores de Angola ou Aruanda efetivamente falam de temas ligados às doutrinas religiosas de caráter mediúnico e com forte expressão da cultura do negro e do indígena (umbanda, candomblé etc.), mas jamais enfocam seu aspecto doutrinário. Não é seu objetivo nem minha pretensão. Procuram tão-somente demonstrar como o trabalho ocorre nesses meios tanto para promover um exercício de fraternidade — mostrando que não é só o jeito espírita a única forma de fazer — quanto para destacar que, por razões históricas e culturais que transcendem aspectos doutrinários, figuras como o preto-velho, o caboclo e o exu fazem parte da realidade brasileira, quer o espírita goste ou não.

Afinal, por que razão não haveriam de povoar o panorama espiritual do Brasil os espíritos que aqui viveram e morreram? E, estando aqui, só podem contribuir nesta ou naquela religião? Ora, se o espírito é minimamente esclarecido, não é sectarista; usa as ferramentas de cada culto conforme a tradição de seus adeptos. Sendo assim, um preto-velho pode usar cachimbo numa casa de umbanda, onde isso é habitual, e certamente não o fará numa casa espírita, pois que nesta soaria como afronta.

Se fosse verdadeira a classificação dos espíritos de acordo com sua feição espiritual — “preto-velho é espírito da umbanda”, por exemplo —, formulo a seguinte indagação. Como podemos trabalhar com padres e freiras no espiritismo? Acaso alguém lhes pediu para abandonarem seus títulos e vestes sacerdotais para que pudessem ser aceitos? Acaso alguém viu em sua presença e atuação uma ameaça de catolicização do espiritismo? Então, por que adotar uma conduta com aqueles que representam o povo historicamente oprimido e discriminado e portar-se de outro modo com aqueles que têm seu passado associado à instituição que mais atrocidades cometeu contra a humanidade, em inumeráveis perseguições em nome de Deus?

Qual a importância do Espiritismo para o seu trabalho?

Meu livro de memórias,[2] em que narro histórias minhas com os espíritos, relata como ingressei no espiritismo. Foi por meio da intervenção direta dos benfeitores na igreja evangélica, quando me preparava para formar-me pastor. Foram eles que me apresentaram os livros de Allan Kardec e o endereço de um centro espírita a procurar, ambos anotados no púlpito da igreja, ao fim de uma pregação mediúnica que fizeram através de mim.

Foi Chico Xavier, ainda que com a contribuição mais esparsa de outros médiuns, o porta-voz dos espíritos para a fundação e orientação de todos os núcleos de trabalho de que participo hoje. Ele é quem encorajou a publicação do primeiro livro — Canção da esperança —, que eu temia, apesar das reiteradas orientações dos espíritos por meu intermédio. A ponto de entregar-me psicografia dele, de autoria do espírito Bezerra de Menezes, que prefacia o livro. Ele também foi quem disse, ao lhe mostrar Tambores de Angola no prelo: “Lance, meu filho, pois esse livro precisa sair. Mas aproveite e se lance para fora do país por um tempo (…) por causa da caridade dos irmãos espíritas…” — disse, apontando para a língua enquanto pronunciava a palavra caridade.

Além disso, e do que já demonstrei na resposta à primeira pergunta, os críticos de meus livros ainda não nos apontaram objetivamente, uma vez sequer, em que ponto nossos livros contrariam Kardec e seus escritos. Como nosso compromisso é com o espiritismo — e não com os espíritas ou com a leitura que muitos fazem do espiritismo —, considero-me fiel ao mandato a mim confiado.

Sendo assim, o espiritismo é o ar que respiro, é o compromisso maior da Universidade do Espírito de Minas Gerias, instituição que engloba as demais por mim fundadas e que hoje conta com mais de 300 alunos em cursos regulares de estudo do espiritismo. A questão talvez seja o conceito que cada um tem a respeito do que seja espiritismo, do que represente ser fiel aos preceitos da falange do Espírito Verdade. A quem caberá o monopólio de tal julgamento?

Nossos livros são desafiadores, controversos, talvez polêmicos, e chocam o status quo no movimento espírita? Que bom! Kardec foi altamente controvertido e criticado, a seu tempo. O mesmo vale para Jesus. Portanto, creio que também assim — embora não somente assim — seguimos seus passos. 

3) Uma análise de José Passini do seu livro Legião circula na Internet. Nela, o autor comenta dezenas de passagens e frases do seu livro com o objetivo de confirmar a tese de que suas “revelações” não seriam reais, colocando dúvidas quanto a seriedade de seu trabalho. O que você pode dizer a críticos desta natureza?


Não conheço tal crítica, feita em público, mas jamais remetida à Editora; no mínimo, nunca chegou às minhas mãos. Portanto, não posso analisar seu conteúdo nem comentá-la.

Entretanto, hei de confessar que não acompanho semelhantes debates na internet, pois a vejo como um fórum onde se resvala para a crítica pessoal, com desdém e desrespeito, ainda de modo mais fácil e freqüente que em outras mídias. Nas poucas vezes em que resolvi lidar com tais comentários, concluí que de duas, uma: ou fazia meu trabalho, ou me ocupava em ficar respondendo e debatendo as inúmeras críticas. Optei pela primeira alternativa, sobretudo porque não há tempo para tudo quanto há. Há tanto por realizar!

Consolo-me na postura de todos os verdadeiros seguidores de Jesus — a que aspiro ser —, que jamais se deixaram levar pelas críticas a ponto de demovê-los da tarefa que lhes fora confiada. E críticos sempre os há! Chico me disse, certo dia, algo como: “Se ficar em casa e não fizer nada, ainda assim falarão de você, chamando-o de preguiçoso. Portanto, prossiga!”. E o mentor Alex Zarthú: “Responda as críticas aumentando a qualidade de seu trabalho”. É nisso que tenho me baseado.

Ah! Preciso acrescentar: meus livros não trazem revelações; nada há neles que seja novidade a ponto de ser assim classificado. E são produto do pensamento de seus autores espirituais, é bom que se diga, e não fruto de elaborações que partem de meu conhecimento pessoal. Há pontos que até para mim se afiguram inusitados ou obscuros e que, de mais a mais, obrigam-me a estudar e rever meus pontos de vista. Sem contar os debates prévios à publicação, em que os enchemos de perguntas e dúvidas…

Como suas palestras e cursos vem sendo recebidos nas casas espíritas que você visita no Brasil?

Muito bem, nas que me convidam. Ao menos é assim que entendo, com algumas exceções, é claro. Ninguém agrada a todos.

Atualmente quais os trabalhos de médiuns brasileiros que você pode destacar?

São muitos… Mas que prefiro não nomear. Sabe como é: muitos são amigos ou conhecidos e, de mais a mais, evito até certo ponto até mesmo a leitura do que está sendo produzido atualmente, como forma que encontrei de me preservar da influência alheia sobre meu trabalho mediúnico. 

Ciência, filosofia e religião. Como você analisa a convivência entre os pólos da Doutrina?

O espiritismo tem no laboratório da mediunidade seu campo experimental e faz-se ciência na medida em que adota um método claro para promover e lidar com os resultados obtidos. Esses resultados são, em grande medida, de natureza filosófica, de uma filosofia com conseqüências morais, e é aí que repousa seu aspecto religioso — no aspecto moral —, conforme esclarece Kardec na introdução de O Evangelho segundo o espiritismo.
Se por convivência se quer dizer de como interagem tais aspectos na atualidade, claramente a prática brasileira do espiritismo privilegiou o lado religioso, em virtude de traços fortes, inerentes à nossa cultura. Sem qualquer julgamento sobre essa realidade, é forçoso reconhecer que cabe ao adepto moderno do espiritismo conciliar tais frutos com o reacender da chama dos aspectos filosófico — por meio do incentivo ao estudo interessante e prazeroso dos postulados espíritas — e científico do espiritismo, retomando a experimentação mediúnica destemida, o exame crítico das comunicações e a coragem e a pró-atividade kardequianas ao abordar a dimensão extracorpórea. 

Qual o livro de sua autoria que mais te marcou?

Sinceramente, não consigo decidir. Há vários, pelos aspectos mais distintos. Todos são como filhos, e é duro dizer a um pai que deve escolher entre os filhos.

Qual o principal conselho que você pode dar a um estudante de espiritismo?

Estude, estude, estude. Quando achar que está pronto, estude mais. Pergunte, sem medo, cultive a curiosidade verdadeira, o desejo pelo saber, que é o combustível do qual Kardec se serviu para promover as investigações que empreendeu. Jamais esqueça Kardec — mais ainda o espírito de seus textos, a atitude que revelam, que os textos propriamente ditos, num apego à letra que pode se tornar fundamentalista. Tudo começou — e persistiu — com a curiosidade do homem Kardec, seu ânimo, as perguntas por ele formuladas previamente às reuniões, com método, critério e redação esmerada. O livro dos espíritos — e o espiritismo, por extensão — nasceu a partir de suas indagações, de sua vontade de conhecer e aprender.

Em Kardec está a base para todo o resto, está o porto seguro para nossa prática, nosso dia-a-dia. Apreendamos dele a ética de nunca se render à tentação atávica de colocar os espíritos em claustros ou altares de santificação. Despeço-me com suas lúcidas palavras: “Conduzi-me, pois, com os Espíritos, como houvera feito com homens. Para mim, eles foram, do menor ao maior, meios de me informar e não reveladores predestinados. Tais as disposições com que empreendi meus estudos e neles prossegui sempre. Observar, comparar e julgar, essa a regra que constantemente segui” (kardec, A. Obras póstumas. Rio de Janeiro, feb: s.d., ed. especial. ii parte. A minha primeira iniciação no espiritismo, p. 329).



[1] “Mais bem observado depois que se vulgarizou, o Espiritismo vem derramar luz sobre grande número de questões, até hoje insolúveis ou mal compreendidas. Seu verdadeiro caráter é, pois, o de uma ciência e não de uma religião; e a prova disso é que ele conta entre os seus aderentes homens de todas as crenças, que por esse fato não renunciaram às suas convicções: católicos fervorosos que não deixam de praticar todos os deveres do seu culto, quando a Igreja os não repele; protestantes de todas as seitas, israelitas, muçulmanos e mesmo budistas e bramanistas. Ele repousa, por conseguinte, em princípios independentes das questões dogmáticas. Suas conseqüências morais são todas no sentido do Cristianismo, porque de todas as doutrinas é esta a mais esclarecida e pura; razão pela qual, de todas as seitas religiosas do mundo, os cristãos são os mais aptos para compreendê-lo em sua verdadeira essência. Podemos exprobrá-lo por isso? Cada um pode formar de suas opiniões uma religião e interpretar à vontade as religiões conhecidas; mas daí a constituir nova Igreja, a distância é grande” (kardec, A. O que é o espíritismo? Rio de Janeiro: feb, s.d., ed. especial, p. 144-145).

[2] pinheiro, Robson. Os espíritos em minha vida. Contagem: Casa dos Espíritos, 2008, p. 187-198.

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