27 maio, 2011

A ESCOLA

Cultura e, sobretudo, esclarecimento, são armas pacíficas contra a discórdia.

Abramos escolas e o canhão se recolherá ao museu..."



A ESCOLA

Demétrio Nunes Ribeiro

(Francisco Cândido Xavier)

Muita caridade se pratica realmente na Terra, como

lançamento de alicerces à nossa felicidade futura.

Há quem levante valiosos monumentos de pedra para

acolher os famintos da estrada, saciando-lhes a fome

e vestindo-lhes o corpo.

Quantas vezes temos vertido lágrimas ao pé do enfermo

abandonado à própria sorte?

Em quantas ocasiões a indignação nos assoma à boca,

diante do sofrimento de uma criancinha desprezada?

Em razão disto, comumente, a prece de gratidão emerge

a para de nossa alegria, quando contemplamos as casas

de amor fraterno, erguidas pela beneficência nas

grandes e nas pequenas cidades, oferecendo uma pausa

ou um ponto final à dura miséria.

Perante o moribundo sem família, que haja encontrado

um teto, ou diante do menino infeliz, que se regozija

com o seio materno que lhe faltava, faz-se em nossa alma

o grande e intraduzível silêncio do júbilo, que se não

exterioriza em palavras.

O infortúnio do próximo é sempre a nossa

infelicidade provável.

A dor é, como o incêndio, suscetível de transferir-se

da habitação do vizinho para a nossa casa.

Atentos em semelhante realidade, somos constrangidos

a reconhecer que qualquer espécie de benemerência exalta

o gênero humano e santifica-o, por fazer-nos mais

confiantes na virtude e mais seguros de nossa

vitória final no bem.

O Criador como que se revela sempre mais sábio, mais

vivo e mais abundante de graças nos mínimos

acontecimentos em que a bondade da criatura

se manifesta.

Seja amparando o velho mirrado, seja insuflando

coragem ao triste, ou abrigando o órfão, ou pensando

as feridas de um corpo em chaga, o coração que ajuda

é invariavelmente um foco de luz cujo brilho se irradia

em ascensão para os mais altos céus.

Mas uma caridade existe, mais extensa e menos visível,

mais corajosa e menos exercida, que nos pede concurso

decisivo para a melhoria substancial da paisagem

humana.

É a caridade daquele que ensina.

A Terra de todos os séculos sofre a flagelação de dois

grandes males. Um deles é a miséria.

O outro, e o maior, é a ignorância.

É a ignorância a magia negra de todos os infortúnios.

Ao seu grosso tição de trevas, o rico esconde o ouro

destinado à prosperidade, e o pobre se envenena com

o desespero, eliminando as possibilidades

resultantes do trabalho.

Pela ignorância, os homens se julgam senhores

absolutos do latifúndio terrestre, que lhes não

pertence, arruinando-se em guerras de extermínio;

o bom se faz ameaçado pela crueldade esmagadora,

o mau se torna pior; a evolução de alguns estaciona

com o manifesto atraso de muitos, e a vida, que é sempre

magnífico patrimônio de recursos para a sublimação,

se vê assediada pela discórdia e pela ira, pela ociosidade

e pela indigência.

Na rede da ignorância, o homem complica todos os

problemas do seu destino, por ela contribui para as

aflições alheias e com ela se arroja aos abismos da

dor e se entrega às surpresas do tempo.

Por este motivo, se o orfanato ou o asilo são casas

abençoadas do agasalho e do pão, a escola será, em todos

os seus graus, um templo da luz divina.

O pão mantém a carne perecedoura.

A luz santifica o espírito eterno.

Não bastará disciplinar as maneiras do homem adulto,

como quem submete animais inteligentes.

A domesticação reclama apenas um braço firme, uma

vergasta e uma voz autoritária, que não hesitem

na aplicação da força corretiva.

Bom é corrigir. Melhor, porém, é educar.

A retificação rude, não raro, produz o temor destrutivo.

O aperfeiçoamento suave e persuasivo gera sempre

o amor edificante.

A ignorância necessita de muito esforço e sacrifício para

deixar suas presas.

Quem se consagre ao mister de auxiliar deve

dispor-se a sofrer.

O exemplo é a força mais contagiosa do mundo.

Por esta razão, quem conserve hábitos dignos, quem

se devote ao dever bem cumprido, quem fale ou escreva

para o bem, combate a ignorância na posição de soldado

legítimo do progresso.

Semelhantes benefícios, no entanto, precisam da sagrada

iniciação com o ato de alfabetizar.

Ensinar a ler e elevar o padrão mental de quem lê

constituem obras veneráveis de caridade.

Descerremos a espessa cortina de sombras que retém

o espírito – ninfa divina – no casulo da inércia.

Os que trabalham em favor das garantias públicas, se

quiserem alcançar, efetivamente, as realizações a que se

propõem, não podem esquecer, em tempo algum,

a instrução e a educação.

É por elas e com elas que as nações sobrevivem no

turbilhão dos acontecimentos que agitam os séculos.

À claridade que despendem, extinguem-se os pruridos

de hegemonia que desencadeiam os conflitos civis e

internacionais, fenece a agressão, desaparece o ódio,

apaga-se o incêndio da revolta.

Depois da morte, reconhecemos que todas as atividades

do homem, por mais nobres, terão sido vãs, ou, mesma

cinza niveladora se o objetivo de aperfeiçoamento

espiritual não foi procurado.

Pela conquista do ouro, quase sempre acordamos velhos

monstros do egoísmo que jazem adormecidos

dentro da alma.

Pela ascensão ao poder político, não raro, a massa

enlouquece no delírio da vaidade.

Pelo abuso nos prazeres físicos, frequentemente o homem

se equipara ao bruto.

Sem a escola, somente liberamos os instintos inferiores

da personalidade ou da multidão, quando pretendemos

libertar-lhes a consciência.

Educando e educando-se, o espírito penetra a essência

da vida, compreende a lei do uso e elege o equilíbrio por

norma de suas menores manifestações.

Grande é a tarefa do pão, que gera o reconhecimento

e a simpatia; entretanto, muito maior é o ministério

do abecedário, que opera o divino milagre da luz,

estabelecendo a comunhão magnética entre a inteligência

do aprendiz de hoje e a mente do instrutor que

viveu há milênios.

Cultura e, sobretudo, esclarecimento, são armas

pacíficas contra a discórdia.

Abramos escolas e o canhão se recolherá ao museu.

Se cada criatura que sabe ler alfabetizasse uma só

das outras que desconhecem a sublime função do

livro, a regeneração do mundo concretizar-se-ia

em breve tempo.

Jesus desempenhou o mais alto apostolado da Terra

sem uma cátedra de academia, mas não se projetou

nos séculos sem as letras sagradas do Evangelho.

É preciso ler para saber pensar e compreender.

Por esta razão expressiva, o Cristo, que consolou almas

aflitas e curou corpos doentes, que patrocinou a causa

dos sofredores e construiu caminhos para a

salvação das almas nos continentes infinitos da

vida, não se afirmou como sendo restaurador ou médico,

advogado ou engenheiro, mas aceitou o título de Mestre e

nele se firmou, por universal consagração.

Fortaleçamos a escola, pois.



(Do livro "Falando à Terra", pelo Espírito Demétrio Nunes Ribeiro, Francisco Cândido Xavier)


Postar um comentário