01 novembro, 2010

A Diferença entre Crer e ter Fé

Se o espírito humano não está sintonizado com o espírito de Deus, ele não tem fé, embora


talvez creia. Esse homem pode, em teoria, aceitar que Deus exista e, apesar disso, não ter fé"

O notável professor, filósofo e humanista brasileiro, Huberto Rohden, em um de seus oportunos

comentários inseridos no livro “A Mensagem Viva do Cristo”, obra que compreende a tradução

feita por ele mesmo dos quatro evangelhos, diretamente do grego do primeiro século, convida-nos a

refletir sobre a significativa distinção entre crer e ter fé. Para ele, a não compreensão dessa questão

tem deturpado a teologia e trazido enorme prejuízo à mensagem do Cristo ao longo desses 2000 anos

. Escreve ele: “Desde os primeiros séculos do Cristianismo, quando o texto grego do Evangelho foi traduzido

para o latim, principiou a funesta identificação de crer com ter fé. A palavra grega para fé é pistis, cujo verbo

é pisteuein. Infelizmente, o substantivo latino fides, o correspondente a pistis, não tem verbo e assim, os

tradutores latinos se viram obrigados a recorrer a um verbo de outro radical para exprimir o grego pisteuein,

ter fé. O verbo latino que substituiu o grego pisteuein é credere, que em português deu crer. Nenhuma das cinco

línguas neo latinas — português, espanhol, italiano, francês, rumeno — possui verbo derivado do substantivo

fides; fé; todas essas línguas são obrigadas a recorrer a um verbo derivado de credere. Ora, a palavra pistis ou

fides significa originariamente harmonia, sintonia, consonância. Ter fé é estabelecer ou ter sintonia, harmonia

entre

o espírito humano e o espírito divino.”

Se o espírito humano não está sintonizado com o espírito de Deus, ele não tem fé, embora talvez creia.

Para o ilustre filósofo, aí está um dos maiores problemas que em muito vem prejudicando a teologia e, para

explicar

a diferença de significado entre uma coisa e outra, estabelece ele o seguinte paralelo ilustrativo: “Um receptor de

rádio só recebe a onde eletrônica emitida pela estação emissora, quando o receptor está sintonizado ou afinado

perfeitamente com a freqüência da emissora. Se a emissora, por exemplo, emite uma onda de freqüência 100, o

meu receptor só reage a essa onda e recebe-a quando está sintonizado com a freqüência 100. Só neste caso, o

meu receptor tem fé, fidelidade, harmonia; fideliza com a emissora”. Dentro desse contexto, “se o espírito humano

não está sintonizado com o espírito de Deus, ele não tem fé, embora talvez creia. Esse homem pode, em teoria,

aceitar

que Deus existe e, apesar disso, não ter fé. Ter fé é estar em sintonia com Deus, tanto pela consciência como também

pela vivência, ao passo que um homem sem sintonia com Deus pela consciência e pela vivência, pela mística e pela

ética, pode crer vagamente em Deus. Crer é um ato de boa vontade; ter fé é uma atitude de consciência e de vivência

”, argumenta o professor Rohden. Salvação não é outra coisa senão a harmonia da consciência e da vivência com

Deus

Para ele, a conhecida frase “quem crer será salvo, quem não crer será condenado”, é absurda e blasfema no

sentido

em que ela é geralmente usada pelos teólogos. No entanto, “se lhe dermos o sentido verdadeiro ‘quem tiver fé será salvo’

ela está certa, porque salvação não é outra coisa senão a harmonia da consciência e da vivência com Deus”.

Em sua opinião,

de sincero buscador, erudito e filósofo espiritualista “a substituição de ter fé por crer há quase 2000 anos,

está desgraçando

a teologia, deturpando profundamente a mensagem do Cristo”.

Consciência Espírita - 2006 Centro de Estudos Espíritas Paulo Apóstolo.
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