25 dezembro, 2010

O SOL DO NATAL


Mais um final de ano está chegando e estamos muito próximos do Natal, onde a maioria dos cristãos irão comemorar o nascimento de Cristo. Muitas pessoas já sabem que a data de 25 de dezembro não é de fato o dia de nascimento do Jesus histórico, mas a escolha desse dia não por acaso coincide com as festividades pagãs, onde os romanos celebravam o renascimento do Deus Solar Mitra, após os solstício de inverno no hemisfério norte.

Nos dias de hoje, as pessoas celebram essa data como uma tradição que já perdeu há muito o real sentido espiritual. O ritual religioso celebrado nas Igrejas, do mesmo modo já perdeu o seu poder de atuação no indivíduo. A grande maioria comemora o nascimento do Cristo, o filho de Deus que foi enviado para nos salvar, um ser de luz, respeitado, mas muito distante de todos nós. Muitos ainda estão esperando a encarnação do filho de Deus, a vinda do Messias como está descrito nas escrituras, e não sabem que o nascimento de Cristo como descrito é somente o símbolo de um evento que só pode acontecer no indivíduo.

Mitra pertence às mitologias persa, indiana e romana. Representava na Índia e na Pérsia a luz do Deus Solar, o bem e a libertação da matéria e era chamado de “Sol Vencedor”. Seu culto era celebrado em grutas sagradas e estava associado à uma existência futura e espiritual completamente libertada da matéria, onde o principal acontecimento era o sacrifício de um touro, de cujo o sangue brotava a vida, propiciando a imortalidade. Os romanos comemoravam na madrugada de 24 de dezembro o “Nascimento do  Invicto”, ou o nascimento do menino Mitra que estava em relação ao renascer do sol após o solstício de inverno, representando o ciclo de morte e renascimento ou renovação da vida, que a primeira vista estava relacionado com as festividades do ciclo agrário.

Mas um símbolo não se limita apenas as camadas superficiais de interpretação, numa camada mais profunda de interpretação o mito do Deus Solar está relacionado ao advento  do nascer da consciência, ou da diferenciação da consciência do inconsciente de onde ela emergiu. E a consciência não surge já pronta, ela surge como uma criança que precisa se desenvolver até atingir a “estatura final de Cristo”, descrito pelo Apóstolo Paulo. Pra depois ainda, num nível mais profundo do mesmo símbolo, representar a própria encarnação do Deus Solar, ou do Si-Mesmo.

Segundo Jung: “ Os símbolos são expressões pictóricas cativantes, numinosas. São retratos indistintos, metafóricos e enigmáticos da realidade psíquica. O conteúdo, isto é, o significado dos símbolos, está longe de ser óbvio; em vez disso, é expresso em termos únicos e individuais, e ao mesmo tempo participam de imagens universais. Quando trabalhados (isto é, recebendo reflexão e articulação), podem ser reconhecidos como aspectos daquelas imagens que controlam, ordenam e dão significado a nossas vidas. Portanto, sua fonte pode ser buscada nos próprios arquétipos que, por meio dos símbolos, encontram uma expressão mais plena.”

Como vimos então, o símbolo enquanto símbolo é vivo e transformador, atua em nossa psiquê unindo opostos, ou melhor, objetivo e subjetivo, espiritual e material.

Nesse caso, porque as celebrações Natalinas não contém mais a sua mágica? Bem, porque o mito foi interpretado como um fato histórico e perdeu o símbolo, perdeu o significado. Cristo deixou de ser o símbolo da consciência pra ser transformado no Jesus histórico encarnado. Toda a simbologia do seu nascimento foi tomada ao pé da letra, e se tornou letra morta.

Que o símbolo verdadeiro do Natal renasça em cada coração. Feliz Natal a todos.

Fontes e ref.: Mitra/Wikipédia; Dicionário Crítico de Análise Junguiano
Extraído de Anoitan
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