20 janeiro, 2011

Lama apresenta as similaridades entre os ensinamentos de Cristo e do Buda




Por Sonielson Sousa - Jornal O GIRASSOL
sonielson.ogirassol@uol.com.br 

Zopa Norbu, Lama do Budismo dos Himalaias (popularmente conhecido como Budismo Tibetano) e diretor para São Paulo do Kagyu Dag Shang Choling - Jardim do Dharma, lança mais uma obra literária que, no mínimo, irá mudar muitos paradigmas, sobretudo daqueles que veem mais similaridades que discrepâncias entre o Budismo e o Cristianismo, duas das maiores religiões do mundo. Aliás, “O Coração da Bondade” trata de temas que transcendem a mera fundamentação religiosa e leva-nos a reconhecer as relações naturais entre tão antigas e belas filosofias, que há séculos são separadas por más interpretações, num jogo que resultou em ações de desunião, em total descompasso com os ensinamentos originais.

Em 90 páginas, o Lama Zopa Norbu dedica-se em boa parte a esmiuçar um dos mais íntimos de todos os nossos medos, presente tanto nas palavras de Cristo quanto nas do Buda. Trata-se do fato de termos de encarar a nós mesmos, desnudos das facetas cotidianas, para que a partir daí se possa, conscientemente, iniciar um verdadeiro caminho de evolução espiritual.

Questionado sobre o porquê escrever um livro com tal temática, Zopa Norbu diz que vê a mística cristã “profundamente emotiva e muitas vezes os próprios místicos se perdem nas suas experiências”. Já a mística de Buda, diz, “é muito racional”. O autor alerta que Buda nunca criou uma religião, “ele expôs os mecanismos da nossa mente, e em especial da mente do homem que procura a si mesmo e tenta entender a sua própria divindade”. Então, para Zopa Norbu, Budismo e Cristianismo são dois “ismos” que em nada ajudam ao ser humano que procura uma saída transcendental. “Como falou JY Leloup, as igrejas - sejam elas budistas ou cristãs - não são donas nem de Jesus nem de Buda”, ensina.


Um novo olhar

No título do livro, há a referência de que o tema recebe “um novo olhar”. O que o leitor pode esperar de novo nesta obra? O Lama responde: “Algo mais próximo de sua própria realidade. Tanto o Budismo como o Cristianismo trazem mensagens que remetem há 2000 anos. Mas hoje se torna necessária uma forma de olhar através de nossa mente do século XXI, sem com isso perder o conteúdo, pois ele é eterno. A transformação mística do ser humano sempre seguiu e seguirá o mesmo caminho”.

Zopa Norbu diz que a via crúcis de Jesus é a de qualquer ser humano que quer se conhecer. “Hoje as mensagens do Cristianismo e do Budismo estão atreladas a grandes corporações comerciais. Abordo isso no livro. As igrejas pentecostais constroem templos caríssimos, os católicos construíram suas igrejas com o ouro roubado das colônias, os budistas constroem templos milionários e mentem falando que esse dinheiro vem de seus fiéis. Isto se deve ao ego deformado de seus líderes que esquecem a mensagem de humildade e santidade dos seus mentores”, denuncia, para complementar que atualmente os líderes estão mais interessados em serem servidos “pelos seus lacaios de turno do que treinar meditação”.

Questionado se há, de fato, muitas similaridades entre o Budismo e o Cristianismo, o autor diz que, a seu ver, trata-se de duas caras da mesma moeda. “Claro que sempre teremos aqueles que só encontram as diferenças, porém eu quero encontrar aquilo que me ajude a ser cada vez melhor. Deste ponto, Cristo é Budha e Budha é Cristo”, defende.

Há vários relatos de ocidentais – inclusive alguns famosos do Brasil – que ao aderir ao Budismo dizem ter experimentado um verdadeiro choque, tamanha diferença de matriz ideológica. Para o leitor, deve ficar a dúvida: Se há muita similaridade entre as linhas de pensamento (isso do ponto de vista da origem de tais religiões), a que se deve este abismo inicial? “O Budismo fala para procurar ‘Deus’ dentro de ti e não fora; já no Cristianismo – das igrejas e templos – apresenta-se Deus como algo que está fora da pessoa. Esta é uma das causas mais desgraçadas que eles fizeram com seus povos, pois está aí o cerne de uma das causas de toda a maldade que existe hoje no mundo”, explica.



Crítica à erudição

O Lama Zopa Norbu é conhecido pela sua crítica à chamada “erudição religiosa”. Perguntado sobre o que acontece com uma mensagem que, de tempos em tempos, é reinterpretada pelos eruditos, o Lama comenta que, em virtude da ausência de treino místico por parte dos eruditos, as mensagens se tornam mais e mais complicadas. “Como se diz nos pampas, ficam tentando encontrar a quinta pata do gato”, fala, em tom bem-humorado. Zopa Norbu diz que, na verdade, o que critica nos eruditos é a arrogância perniciosa destes que se autointitulam “conhecedores do que um Budha ou um Cristo pensa”. “Se eles olhassem mais profundamente, poderiam observar que estão completamente cegos dentro de sua própria interpretação das escrituras”, alerta, para completar que “o Budha deu exemplos disto”. Para elucidar, Zopa Norbu lembra a parábola dos cegos e do elefante, onde cada um descrevia o elefante desde o ponto de vista da parte do animal que tocava, sendo que uns pensavam que o elefante era como uma montanha, porque estavam tocando uma das patas do animal. Outros pensavam que o mamífero era magro e flexível porque pegavam o rabo, e assim por diante. “Os eruditos falam sobre o que não conhecem, tornam-se arrogantes e obscurantistas. Manipulam as mentes humanas e confundem os espíritos dos seres humanos. Os grandes mestres e iluminados de todos os tempos não foram eruditos, eram pessoas simples e de bom coração que queriam viver como Budha e Jesus”, explicita Zopa Norbu, com destemor.



Sem fundamentalismos

De leitura fácil e agradável, “O Coração da Bondade” estimula as pessoas a saírem da zona de conforto que permeia grande parte de suas vidas – senão, de toda a vida – para observar uma realidade bem mais ampla. Questionado sobre de que forma o livro contribuirá para atenuar o discurso exclusivista dos fundamentalistas, o escritor diz não acreditar que a obra diminuirá o problema. “Possivelmente eles [os fundamentalistas] o ataquem ou chamem de obra do demônio. Aliás, eles enxergam o demônio em tudo. Do ponto de vista do Budismo, quem enxerga o demônio em tudo é o próprio demônio. É de se pensar, não é?”, questiona, para logo dizer que o objetivo do livro é alcançar as pessoas comuns, e que assim “encontrem nele um pouco de consolo”. “Espero que o livro chegue às milhares de pessoas que estão neste momento clamando por uma saída, e que todos aqueles que leem esta matéria me ajudem a divulgar o mesmo”, conclui.

O “O Coração da Bondade” é um instrumento perfeito para ampliar a visão de budistas, cristãos e qualquer interessado em crescer espiritualmente. A obra derruba fronteiras e serve de antídoto para uma época tão marcada pelo fundamentalismo. É um livro verdadeiramente transformador.



Serviço
O que: Lançamento de livro
Título: O Coração da Bondade – A Mística Cristã e Budista sob um Novo Olhar
Autor: Lama Zopa Norbu
90 páginas


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