21 janeiro, 2011

O PROCESSO CONTRA O BURRO - Jorge Adoum





“Houve um tempo em que os animais falavam, e os homens entendiam sua linguagem; hoje os animais falam, mas os homens não os entendem. Contudo, existem, até hoje, alguns homens, certamente poucos, que ainda entendem o idioma universal da Natureza, que é o idioma do homem e ao mesmo tempo o dos animais.”


Era o que me assegurava um amigo – perdão, empreguei mal o termo; eu não tenho amigos nem posso tê-los, porque eles não mais existem. Então repito: era o que me assegurava um homem, companheiro de uma viagem de trem.


A julgar por sua fisionomia e por seus modos, convenci-me de que se tratava de um filósofo muito sério, pois sua forma de se expressar me surpreendeu.


Falava a respeito de tudo, e com tal segurança que cheguei a pensar que aquele filósofo seria uma fonte inesgotável de sabedoria e de experiência.


Para meu pesar, aquele homem conquistou meu respeito. Sentou-se junto de mim, único lugar desocupado, cumprimentou-me com toda a cortesia, e depois me disse:


- Companheiro! Sei que você é um homem muito retraído, que vive no mundo dos seus pensamentos; porém, permito-me a liberdade de dizer-lhe que viagem é longa, e as asas de sua mente, ao se verem impossibilitadas de atravessar o Infinito, irão se cansar e retornarão a este mundo.


E assim começamos a conversa; falamos de muitas coisas e, sem perceber como nem por quê, chegamos ao assunto que foi objeto deste conto.


Quando ouvi aquela afirmação sobre a linguagem comum dos animais e dos homens, fitei-o nos olhos, janelas da alma, para certificar-me se estava gracejando ou zombando de mim. Seus olhos estavam serenos como lagos encerrados entre montanhas; refletiam a serenidade e a segurança que nos fazem cambalear em nossa firme convicção.


Inclinei então o olhar e, entre um movimento de ombros acompanhado de um trejeito nos lábios, que às vezes nos coloca entre a dúvida e a crença, disse-lhe:


- Pode ser.


- Pode ser? – indagou ele com ênfase. – Este “pode ser” cheira a dúvida e negação.


Depois de um momento de silêncio, voltou a dizer-me, com um tom suave, como se tivesse pena de minha ignorância ou como se estivesse arrependido de sua emoção.


- Não o culpo se você não pode entender o meu idioma – observou ele, guardando silêncio.


Eu, de minha parte, quis ler algo em seu silêncio; feriu-me profundamente o seu tom compassivo e logo perguntei:


- De que idioma você está falando? Será do idioma universal?


No torvelinho daqueles fiapos de silêncio, atilei meus ouvidos para escutar as palavras que caíam de seus lábios.


O homem extraordinário não respondeu às minhas perguntas, mas com toda a tranqüilidade começou a relatar o conto que se segue:


Contam, e Deus saberá melhor que qualquer um – como dizem os árabes –; porém, você deve considerar que eu disse “contam”.


Pois bem, contam que, em certa selva oriental, um leão tinha saído de sua guarida e lançou um rugido aterrador para os ouvidos humanos; mas para os animais era um chamamento do Rei das Selvas. Era como uma convocação para uma Assembléia Geral de todos os chefes doa animais. 


- O Rei ordena, que viva o Rei! – ouviu-se o grito por toda a selva.


Era noite. A lua surgiu e cravou seus olhos naquela policromática e extraordinária Assembléia de animais ferozes; imediatamente inclinou seus ouvidos a fim de ouvir todas as moções e sugestões dos presentes.


A lua é um anjo intermediário: executa as ordens do Sol na terra e registra os fatos da Terra para comunicá-los ao Sol. 


* * *


O secretário da Assembléia de animais era o papagaio, que começou a fazer a chamada, um por um, de todos os presentes, para certificar-se de que havia quorum, requisito necessário para a abertura dos trabalhos da sessão. Todos estavam presentes: o leão, o tigre, o leopardo, a hiena, o lobo, a raposa, o cachorro e muitos outros mais (aqui se pode repetir o dito que diz: “Deus os cria e eles se juntam”).


Por volta das dez da noite, levantou-se o leão e pronunciou se discurso de abertura:


- Ahaa Ahaááárr Tháááárrrr.


Traduzido para a linguagem humana, isto significa:


- Senhores e chefes do reino animal, convoquei-vos nesta noite para levar ao vosso conhecimento que o estado atual das coisas é insuportável, calamitoso, desastroso. Nossa selva já está vazia e não há alimentos; vejo-os esquálidos e mortos de fome. Deveis saber, meus filhos, que quem deseja seguir, sem desviar-se, a corrente da vida, deve ter três coisas: riqueza, poder e previsão para o futuro. Atualmente, nós somos poderosos, mas nos falta a riqueza, e eu, na qualidade de vosso rei, tenho por dever velar por vossos interesses para o futuro. 


Quando o rei chegou a esta altura, ouviu-se entre os animais o som de muitas vogais unidas, à vezes, a algumas consoantes, como: Uúúúú, Iiii, Ababab, Nau, Nau etc.; eram aplausos.


Satisfeito com o efeito que suas palavras produziam, o rei continuou:


- Sim, meus senhores, o rei que não cuida dos seus súditos é um rei egoísta e mau. O rei que vive na opulência, privando dela seus amigos e irmãos, é um morto que caminha. Não negamos que todos somos sanguinários e ferozes; porém, de que nos servem as garras e a potência das mandíbulas, se não temos caça? Nós, senhores, devemos aspirar a toda opulência e poder.


- Siiiii! – gritaram os presentes.


- Não é porventura ignomínia que nós, reis e príncipes da selva, morramos de fome e de fraqueza, enquanto os animais domésticos vivem na opulência, carregados de carne e gordura?


Ao proferir estas palavras, o leão engoliu a baba que lhe caía da boca, enquanto o lobo segurava a barriga com suas duas patas, pois seu estômago roncava de fome. O urso caiu no chão, murmurando entre os dentes: “Pra que falar de comida diante de um faminto?” Por sua vez, o tigre lambia seu focinho com a língua.


- Minha conselheira, a raposa – prosseguir o leão –, disse-me certa vez: o forte deve dominar os fracos e o grande deve engolir o pequeno, porque esta é a lei natural, e aquele que se descuida de cumpri-la será castigado pela própria lei, trocando sua força pela fraqueza, e...


Nesse momento as palavras do leão foram interrompidas por um zurro sonoro que provinha de um estábulo distante da selva. Aquele zurro produziu no leão uma onda de cólera, um manifesto nervosismo; e então ele gritou:


- Quem é o atrevido que fala assim, sem minha permissão? Pois esse insolente que se ri da desgraça alheia merece a morte!


- Senhor! – atalhou o cachorro – eu conheço essa voz; é do nosso irmão, o burro e, como Vossa Majestade sabe, é um ser muito bobo, porém muito pacífico.


- Amigo cachorro, esse animal bobo, que sabe interromper os reis em seu discurso, merece um castigo exemplar. Por acaso você não lhe ensinou que o rei não deve ser interrompido quando fala?


- Sim, senhor, mas permito-me lembrar que Vossa Majestade tinha promulgado a liberdade de palavra e de pensamento.


Quando o leão ouviu este argumento, sacudiu sua juba, ergueu-se, deu uns passos entre os presentes; despertara-se nele a qualidade de rei e leão, de amo e senhor da selva. Em seguida bramiu:


- Aháááááárrrr. (Você também é um traidor que defende o inimigo do seu rei.).


Os demais animais ferozes responderam com um grito mais feroz e cravaram olhares flamejantes no cachorro, mostrando-lhe seus cortantes colmilhos.


O pobre cachorro, apesar de sua fidelidade ao seu amigo, o burro, não se alterou, mas, ao se ver perdido, reuniu forças de sua fraqueza e disse:


- Perdão, Majestade, vós sabeis que sou o ser mais fiel entre os quadrúpedes e nenhum ser me chamou de traidor; porém, se eu respondi a Vossa Majestade desta maneira é porque, levado pelo amor que dedico ao meu rei, tinha que defender a reputação de Vossa Majestade, pois me ensinaram, desde pequeno, que as palavras dos reis são as rainhas das palavras.


Quando o cachorro terminou de proferir sua autodefesa, o urso levantou-se e disse:


- A reputação do rei está acima de toda calúnia; por isso, não precisa de tua defesa.


Sua Majestade teve razão quando te chamou de traidor, porque, apesar de tua origem sanguinária, te deixaste domesticar pelo homem, e teu amor pelo homem, por seus bens e por seus animais domésticos obriga-te a atacar tua própria raça, nação e pátria. Por isso, também eu te chamo de traidor.


Desta vez o cachorro se encolerizou e gritou: “Hab, Hab!”, que se traduz por “Protesto, Majestade! Este urso sujo é o traidor, e tenho minhas provas. Este urso nunca ataca de frente, mas somente as crianças e os pequeninos. Com os fracos ele é um herói, mas diante dos fortes é tão velhaco e covarde que não se atreve a deter-se em sua fuga. E tem mais: quanto tem fome e não encontra um ser fraco para devorar, encolhe-se em sua toca e chupa o sangue de suas próprias patas para saciar sua fome. Ele se deleita também em fartar-se com os cadáveres putrefatos, coisa que horroriza a Vossa Majestade e todo animal que possui um átomo de dignidade”.


Ao ouvir o cachorro revelar sua vida íntima, o urso urrou em voz baixa e logo se calou, meditando um plano de traição no qual devia pilhar o inimigo.


Entrementes, pôs-se de pé o lobo que pediu a devida licença para usar da palavra e falou desta maneira:


- Majestade, Príncipes. Vós todos sabeis que sou o súdito mais leal e mais dedicado ao meu rei e à minha selva. Odeio mortalmente a traição e o traidor. Vós todos sabeis que existe um vínculo de parentesco entre mim e o cachorro. Outro, em meu lugar, respeitaria o parentesco; mas eu, na qualidade de súdito fiel, declaro aos quatro ventos que meu ex-parente, o cachorro, é traidor, porque defendeu um estrangeiro pernicioso. O burro é um constante agitador, não respeita nossas sagradas leis selváticas; o burro merece a morte porque interrompeu a voz de nosso senhor, o rei, Sua Majestade, o leão; e também o cachorro merece a morte porque se converteu em defensor de um traidor, pois o defensor de um traidor é igualmente traidor.


O discurso do lobo excitou o apetite de todos os presentes e muitos deles chegaram até a cheirar a carne fresca do burro.


Indignado diante da hipocrisia do lobo, o cachorro ladrou com mais força do que antes, e disse:


- Estas palavras do lobo me fazem chorar de raiva. Então o lobo, o mais traidor de todos os animais, vangloria-se de se súdito leal? Pois o lobo, cujo coração está desprovido de todo carinho, ataca e atraiçoa seu próprio pai, seu próprio irmão e sua própria mãe. Majestade, não nego e ex-parentesco que eu tinha com ele; porém, devido à sua traição característica, tive que romper definitivamente com ele em razão de meu caráter de fidelidade; porque me conscientizei de que o ser que atraiçoa seu próprio irmão e sua própria mãe, nunca pode ser nem amigo, nem leal a seu rei. Desejaria que Vossa Majestade perguntasse a esse caluniador: por que os lobos andam sempre em fileiras e aos pares? Pois bem, Majestade, acontece que os lobos não confiam uns nos outros, porque, quando um se adianta, o que vem atrás o ataca pelas costas ou o devora. E tem mais, meu senhor: quando um lobo se fere por casualidade, que acha Vossa Majestade que os outros companheiros fazem? Acha que prestarão ajuda para curar a ferida? Não, meu senhor, todos os seus companheiros, em menos de um segundo, o devoram sem compaixão. Por este motivo, meu senhor, envergonho-me de ter tido um parentesco com um ser tão desalmado como o lobo.


Certa vez ouviu meu amo, o homem – certamente nem todo homem é bom – repetir estes versos:


Somente o lobo, ao dormir, fecha um olho;
Pois com o outro vigia e sempre espreita,
Porque ele é um traidor astuto e mau.
E, que traidor pode dormir tranqüilo?


Ao ouvir estas palavras, o leão sorriu frente à eloqüência do cachorro, enquanto que o tigre virava a cabeça para um lado para disfarçar seu riso.


Então a raposa se pôs de pé; ela nutre um ódio mortal pelo cachorro, por motivos que não podemos enumerar aqui, e urrou:


- Aáááááúúúú – com o que se dirigia desta forma aos membros da Assembléia:


- Senhores: na qualidade de conselheira de Sua Majestade, o rei, devo dizer que este charlatão, o cachorro, é um quadrúpede mau e sem-vergonha. Como se não lhe bastasse defender um estrangeiro de raça, de pátria e até de religião, não é que agora quer denegrir nossa irrepreensível reputação? Todos vós sabeis que sou uma devota e que cumpro com meus deveres religiosos e pratico a caridade. Manifesto-vos tudo isto para que compreendais que não minto, porque a mentira é proibida para um piedoso como eu. Também sou um ser muito sóbrio em minha vida; conforto-me com um ou dois pintinhos. Eu não sou ambiciosa; minha única ambição é servir ao rei com meus conselhos para o progresso de nosso reino. Baseada nesta exposição dos fatos, agora vos juro, por todos os santos e pela salvação de minha alma, que o burro é culpado de alta traição. Quantas vezes o ouvi rogar a seu deus para que morram todos os leões, os tigres e todos os animais ferozes! Quanto ao cachorro, dir-vos-ei que muitas vezes frustrou meu intento de roubar uma miserável e pequena galinha, que talvez da nada servisse para o dono. Este é o cachorro, meus senhores, que abandona o nosso convívio para ir viver com o homem. Senhores, o cachorro defendeu nosso inimigo comum e estrangeiro, o burro, que, abusando de nossa hospitalidade, encheu-se de gordura e de carne e, não satisfeito com tudo isso, sua ousadia chegou ao ponto de interromper Sua Majestade, o rei, em seu patriótico e bondoso discurso. Volto a repetir, senhores, que o cachorro merece a morte, porque defendeu o agitador e o inimigo comum, o burro, e não devemos esquecer o que os sábios nos disseram: “O amigo de nossos inimigos, nosso inimigo é”. E agora, antes de concluir minhas palavras, invoco todos os santos para que concedam uma longa vida a nosso pai bondoso, o rei; porém, antes de mais nada, devemos matar o burro e o cachorro para a paz da pátria e para o bem-estar de todos os animais. Tenho dito.


Quando a raposa terminou de falar, o clamor de aprovação era ensurdecedor. Todos os presentes mostraram seus dentes e estavam preparados para agredir o cachorro.


O cachorro, por sua vez, aparentou uma tranqüilidade que em absoluto sentia e, disfarçadamente, olhou para a direita e para a esquerda para calcular o salto. Enquanto os uivos e os bramidos intensificavam-se, ouviu-se o rugido aterrador do leão:


- (Ahááááárrr.) Cuidado. Não deveis esquecer de que estais na presença do rei e juro por minha honra que o primeiro que me faltar com o respeito pagará sua falta com a própria vida.


Aquele rugido produziu o efeito de um raio mortal. Todos os animais voltaram para seus lugares, lançaram-se ao chão, e um silêncio sepulcral reinou entre os presentes. Então o leão dirigiu a palavras ao cachorro, dizendo-lhe:


- Que tens a dizer contra estas acusações? Tens alguma defesa a teu favor e em favor do burro? Pois te digo que tenho muita confiança em minha conselheira, a raposa.


- Senhor – disse o cachorro – não quisera responder nem defender-me das acusações caluniosas da miserável e hipócrita raposa. Às vezes a dignidade, meu senhor, obriga-nos a calar para não nos rebaixarmos ao nível do caluniador e para não nos compararmos com ele; porém, como Vossa Majestade exige isso de mim, faço-o por obediência. Antes de tudo, devo dizer-vos que a raposa é vossa má conselheira, porque ela, que vive a vida inteira mentindo, nunca poderá dar conselho leal. Meu senhor, o mentiroso não pode ter dignidade nem lealdade.


A raposa me tachou de sem-vergonha, porque nunca quis atraiçoar meu amo e porque lhe defendi os bens. Senhor, meu amo depositou em mim a sua confiança e eu seria um mau cachorro se o traísse. Um ser leal deve sê-lo na ventura e na adversidade, e um ser verdadeiramente leal nunca pode trair sua pátria nem sua raça. Em se tratando de religião, não nego que não professo a religião hipócrita da raposa, pois minha única religião é o amor desinteressado por meus amos, por meus companheiros e por todas as criaturas de Deus. A raposa alegou que eu denigro sua reputação; não o nego, e faço-o porque não sou mentiroso; não posso dizer que o preto é branco, tampouco posso assegurar que o traidor é um santo nem que o santo é um réprobo.


A raposa diz que é uma devota, que cumpre com seus deveres religiosos. Isto é uma infâmia, senhor, porque ela aparenta devoção para iludir os seres fracos; se não for isto, que nos conte, então, o que ela dizia a um pobre galo, em nome de Vossa Majestade; e, se ela não o disser, eu digo:


“Pois bem, um belo dia a raposa encontrou um pobre galo que descansava no galho de uma árvore. Achegou-se a ele e lhe disse:


- “Bom-dia, irmão galo.


Ah! Ah! Ah! – riu-se o galo. - Tu és minha irmã? Ora essa, vai cantar em outra freguesia.


- “Como é?! Ainda não chegou até ti o novo decreto de nosso rei, que ordena paz e fraternidade entre todos os seres? Pois te juro, por minha honra, que eu não guardo por ti senão carinho profundo, porque devo obedecer à lei de nosso senhor o rei. Portanto, suplico-te que desças para que te dê um abraço fraternal antes de continuar meu caminho, anunciando a boa-nova.


-Enquanto a raposa falava, eu de longe, suspeitei e corri em defesa do galo que, ao ver-me correr em direção a ele, disse à enganadora:


- Deve ser verdade o que dizes, porque vejo chegar o irmão cachorro e agora vamos comemorar, os três, a auspiciosa notícia.


Quando a sem-vergonha ouviu meu nome, não sabia como escapar, do susto que levou, deu o fora, dizendo:


- “Agora estou ocupada. Adeus, adeus; voltarei outro dia”.


Esta é a raposa, meus senhores, que fica aí propalando que, por princípio religioso, não gosta de mentir. E com as galinhas? Essas bobocas, bem que ela sabe enganar, dizendo-lhes que se tornou asceta e vegetariana e que jurou nunca mais comer carne. E assim as bobonas beatas confiam e se entregam cegamente a ela.


Mais outra falsidade da raposa, quando disse que se contentava com uma galinha por dia. Vou contar-vos, senhores, o que aconteceu faz pouco tempo. Certo dia meu amo levou-me com ele ao povoado. Por infelicidade tinha esquecido aberta a porta do galinheiro, no qual havia doze galinhas, três das quais estavam incubando mais de trinta pintinhos. Chegou a senhora raposa – essa mesma que diz que se contenta com uma só galinha por dia. Senhores, o que acreditais que ela tenha feito? Pois tinha carregado e enterrado nove galinhas, inclusive as que estavam chocando, além de vinte e cinco pintos, que descobri depois de muitos esforços; e os outros habitantes do galinheiro, só Deus sabe onde é que foram parar. Esta é a raposa que conta vantagens de si, que diz que não é ambiciosa.


É surpreendente o gênio do mal que este quadrúpede possui: certa vez a vi lançar mão desta arma secreta para caçar uma ave: depois de molhar o pêlo no rio, friccionou-o com areia colorida e deitou-se de costas, fingindo-se de morta para enganar as aves de rapina; e, assim,quando uma ave se aproximou para picar, ela a prendeu com suas delicadas garras e em seguida simplesmente a devorou.


Naquele momento, o cachorro foi interrompido com o som de “Ahak, Ahak”. 


Era o corvo que, lá de cima de uma árvore próxima, escutava a sessão, e disse:


- Isto é verdade e ainda conservo o sinal de uma ferida em meu corpo como lembrança daquele acontecimento.


Todos os animais riram, enquanto o cachorro continuava seu discurso:


- A raposa jura por todos os santos e pela salvação de sua negra alma que o burro cometeu uma alta traição. Pode essa raposa enganadora dizer-nos quais são suas provas que demonstram com evidência a culpabilidade do burro? A raposa imputou suas próprias culpas ao pobre burro e pediu sua condenação. Senhores, já ouvi dizer várias vezes o seguinte: “Aquele que tem telhado de vidro, não deve atirar pedras no do vizinho”. O burro não pode cometer traição alguma; ele pode, por sua bobice, cometer uma besteira e isto é devido à sua ignorância.


A desleal raposa diz que o pobre burro é estrangeiro e inimigo comum, então agora vos pergunto, meus senhores: “Quem não é estrangeiro neste mundo? Quando foi que a lei natural traçou limites na Terra? Quando fez a terra distinção entre um animal e outro: porventura não somos todos filhos da mesma Terra? Portanto, não posso acreditar que a raposa tenha descido sozinha do planeta Vênus ou de Marte, nem que ela seja a filha predileta dos deuses. Este termo “estrangeiro”, que a raposa emprega, é o termo de homens desgraçados, filhos da ambição e da maldição, que inventaram esta palavra para semear a discórdia entre os homens, em lugar da fraternidade. Senhores, os semelhantes se atraem; por isso, a raposa já empregou as palavras dos homens malditos pelas gerações para semear a cizânia entre os animais.


Por último, a raposa hipócrita invocou os santos para que concedessem uma longa vida ao rei. Estas foram as mesmas preces que dirigiu antes, por nosso rei anterior e pai do atual, porém, a mim a calhandra contou que, quando o antecessor do nosso soberano agonizava, achando-se sozinho em sua guarida, chegou a raposa e começou a devorar-lhe o ventre, antes que o pobre exalasse seu último suspiro. 


* * *




Esta é a raposa, senhores, que, sendo tão traidora como o lobo, vangloria-se de seu patriotismo e atribui a traição a todo mundo. 


* * *


Quando o cachorro terminou o seu discurso, todos os animais ficaram em silêncio, esperando a sentença do leão que, apesar de sua fome, ficou também em silêncio durante muito tempo para em seguida se pronunciar:


- Senhores, dentro em pouco nascerá o Sol; por esta noite encerro a Assembléia. Tenho que meditar durante o dia e vos comunicarei minha decisão. Porém, antes de nos separarmos, ordeno que o burro participe da Assembléia para que ele próprio se defenda e ao mesmo tempo ordeno que a conselheira raposa comunique minha ordem ao burro. 


* * *


Durante o dia, o leão teve várias entrevistas secretas com o lobo, o urso e a raposa, cujos resultados não chegaram aos meus ouvidos; porém, em vista das conseqüências, podemos conhecê-los sem ser adivinhos.


O covarde que não se atreve a atacar frente a frente o inimigo, prepara-lhe nas sombras uma armadilha. 


* * *


Na manhã daquele dia, disse o cachorro ao burro:


- Ouve, bobo, tens que ouvir e obedecer ao que te digo: Hoje tu não deves afastar-te de casa e, se te for possível, não sair do teu estábulo.


- Por quê? – perguntou o burro.


-Aquele que pergunta “Por quê?” deve ser aspirante ao saber, ao passo que tu és um ignorante; fazes as perguntas automaticamente. Não quisera perder palavras contigo; porém, para desencargo de consciência, dir-te-ei, a Assembléia de animais decretou tua morte.


- Por quê? – perguntou de novo o burro.


O cachorro fitou-o com um olhar enigmático, cheio de compaixão e de dor, de sarcasmo e de indignação; e quando compreendeu que era inútil continuar discutindo com ele, disse-lhe e afastou-se:


- Não deves sair do estábulo, não deves te afastar de casa e, sobretudo, não deves zurrar por motivo nenhum. 


* * *


Na tarde do mesmo dia, enquanto o cachorro cumpria as ordens do amo, num povoado vizinho, o burro saiu do estábulo e, depois de ornear com uma voz estridente e desafinada, saiu para pastar perto de casa.


O Sol estava à altura de um metro do horizonte, quando a raposa se aproximou sorridente dele e lhe disse:


- Saúde e paz, irmão burro.


- Saúde, saúde – respondeu precipitadamente o burro, mastigando com apetite; e depois de olhá-la indiferentemente, voltou a comer as ervas tenras. A raposa voltou a conversar, dizendo:


- Irmão burro, vejo que ficaste guloso. Não te ensinaram que a gula é um pecado mortal?


O burro, que não podia abrir o focinho, porque naquele momento estava cheio, balbuciou certas sílabas que queriam dizer:


- No comer está o viver.


- Ora, ora! Quer dizer que ultimamente viraste filósofo. 


Envaidecido com aquele título, o burro eriçou as orelhas e disse:


- Muito obrigado, irmãzinha raposa, eu sou assim; sempre acreditei, embora o cachorro me chame de ignorante, que a maior sabedoria consiste em ter boa dentadura e estômago perfeito. Que achas de minha idéia?


- Tenho que decorar esta grande idéia a fim de transmiti-la textualmente ao meu soberano e rei, que é o leão – replicou a raposa.


- Porém, tome cuidado para não plagiá-la!


- Burro, quem achas que eu sou? Agora falemos de outra coisa. Que tal o pasto por aqui?


- Hummm! Não é nada mau, embora já comece a ficar duro e seco.


- Por que não vens comigo? Eu vi um lugar cheio de ervinhas bem frescas. Vem que te levarei a ele, onde há mil e um amores.


- Não, agora não posso, porque o cachorro me disse que não devia afastar-me de casa.


- Foi o que te disse o cachorro? E tu, o grande filósofo, recebes ordens desse charlatão, que ladra dia e noite? Vem, amigo, vem; nós, os filósofos, não devemos ter relações com seres estúpidos e palradores.


O burro refletiu um momento, duvidando de sua própria filosofia e do conselho da raposa; e esta lia os seus pensamentos e preparava a armadilha final. Depois de instantes, a raposa reatou a conversa, enquanto o Sol se ocultava por trás das montanhas.


- Esqueci-me de dizer-te que naquele lugar encontrei uma mulinha, que era mais formosa que uma égua; mas a coitada está tão triste porque, pelo que pude ver...(e piscou para o burro), estava sozinha e desejava muito um companheiro.


Ao ouvir isto, o burro começou a tremer de paixão; deixou de comer, levantou o lábio superior até tocar o nariz, aspirou fortemente o ar e, em seguida, soltou um ornejo ensurdecedor.


- Aháááá-ih-áááá-in-ah-ahá-já-já...


E todo esse longo discurso dizia o seguinte: “Irmã raposa, conjuro-te a que me leves a ela de pronto. Vamos, corre, voa, mais rápido!”


Todos os animais são como os homens, muito dados à luxúria; ao homem, só a razão o freia, mas quando o ser é privado de razão, como no caso do burro..., identifica-se com sua própria paixão e se deixa levar por esta até a perdição.


Os dois seguiam correndo; a todo momento o burro conjurava sua companheira para que apressasse o passo.


Já era noite bem adiantada e tinham penetrado fundo na floresta; então a raposa clamou:


- Aúúúúhóóóóoooouuuu.


E, antes de concluir seu chamamento, dentre as árvores saíram quatro lobos a quem a raposa disse:


- Conduzi-o diante de Sua Majestade, o leão.


Quando todos chegaram à guarida do rei leão, este ordenou:


- Que o burro fique preso entre os quatro lobos até que obtenha a sentença final da Assembléia.


* * *




Eram nove horas da noite; todos os participantes da Assembléia estavam reunidos. O cachorro chegou atrasado, muito contrariado, meditando na maneira de salvar aquele estúpido animal que não deu ouvidos aos seus conselhos.


- É impossível – dizia; - a ignorância e a estupidez são pecados iguais ao assassinato e ao roubo. Desta vez o burro não pode ter salvação.


Todos estavam presentes. O leão ordenou que o tigre, na qualidade de chefe supremo da força, presidisse a sessão.


Todos reunidos, o juiz abriu a sessão, achando-se o burro encarcerado e ausente. O urso adiantou-se para o centro do tribunal, e em voz alta falou:


- Senhores animais, animais quadrúpedes e alimárias, carnívoros e herbívoros, grandes e pequenos, ouvi: Nosso rei e senhor, amo das selva e de tudo o que existe ao redor, encontra-se muito agastado, porque seu paternal discurso foi interrompido pelo degradante ornejo do burro. Agora que estamos na presença do Tribunal Superior, cada um de vós deve dizer a verdade e tudo o que souber, pois o réu será julgado conforme o depoimento de todos vós. O tribunal quer juntar provas, pois sua senhoria diz que não há maior erro do que condenar sem provas.


Pausa. Em seguida o juiz disse:


- Senhores jurados: transmito-vos as palavras de nosso senhor, o rei, que vos adverte a que não oculteis a verdade e a que declareis sem medo tudo o que sabeis. Cuidado para não faltardes com a verdade; pois, que assim agir, será tratado como cúmplice do criminoso e será duramente castigado. Dizei, portanto, tudo o que souberdes e atentei para o que diz o primeiro artigo do Código Penal: “Quem se nega a ser testemunha de um crime cujo autor conhece, em sua boca será colocado um freio e fogo”.


Então a raposa se levantou e gritou:


- Senhores jurados, que provas devemos ainda juntar? Porventura o burro não ornejou enquanto o rei pronunciava seu discurso? Porventura alguém de vós duvida de que o burro é um agitador e perturbador da ordem pública? Não é suficiente seu ornejo para acarretar a sua condenação?


Ninguém se atreveu a dizer “Esta boca é minha”. O mais profundo silêncio dominava a Assembléia. Ao vê-los todos calados, o juiz disse:


- A defesa do burro é permitida, e nomeamos o cachorro como defensor legal do ausente.


O cachorro quis esquivar-se, mas o rei falou:


- Tu tens que defender teu amigo e dou-te a minha palavra de que serás respeitado e ninguém se atreverá a tocar-te.


Ao ouvir isto, o cachorro se ergueu e, depois de agradecer ao rei, dirigiu-se à Assembléia nestes termos:


- Senhores, as provas da raposa não têm nenhum valor por dois motivos:


1.°) Quando o burro ornejou, estava muito longe e não tinha ouvido a voz do rei; e


2.°) fazia tempo que Sua Majestade, o rei, tinha promulgado e permitido a liberdade de palavra.


Então se levantou o porco, dizendo:


- Honorável Tribunal: refleti no que vou lhes dizer; o burro é um animal muito sujo e asqueroso; urina e dorme sobre seu próprio esterco; às vezes rouba os bens alheios, pastando até entre os trigais verdes e tenros.


O cachorro respondeu:


- Tu, o grande cochino, o mais sujo e imundo dos animais, te atreves a falar de sujeira? Quantas vezes te persegui na casa do patrão, roubando o pão e sujando os móveis com tuas patas e corpo repugnantes? Todos podem falar de asseio, menos tu.


Levantou-se o lobo e disse:


- O burro é um conspirador, porque, segundo informações recebidas, sei que uma vez disse: “Desejo a morte dos animais sanguinários para ter a selva como propriedade particular”.


- Pode apresentar estas informações, lobo?


- Duvidas de minha palavra?


-Não só duvido de tua palavra, mas te declaro mentiroso perante toda a Assembléia.


Quando o cachorro falou isso, um grande silêncio passou a reinar na Assembléia, e ninguém se atreveu a lançar outra acusação, porque lhes pareceu que o cachorro adivinhava até seus mais íntimos pensamentos.


E, enquanto todos se mantinham calados, o juiz perguntou:


- Não há mais provas contra o burro?


Pausa.


- Portanto, senhores, eu não encontro causa suficiente para castigar o réu.


- O burro é culpado e exigimos sua morte – uivaram alguns.


O juiz protestou, dizendo:


- Sem provas não posso condená-lo.


- Exigimos que o burro se apresente e confesse seus pecados diante do rei, o único que tem o direito de absolvê-lo, reduzir a pena ou aplicar-lhe um castigo leve.


- Neste caso – disse o juiz – demito-me do meu cargo.


A raposa ululou.


- Protesto, não aceito sua demissão. Neste caso peço que Sua Majestade, o rei, mande que todos confessem seus pecados para julgar quem é o mais culpado.


O leão ouviu isto e falou:


- Aceito a sugestão. Tragam o burro.


O burro foi levado à Assembléia e, quando os carnívoros contemplaram aquela gordura, acharam-na provocante ao paladar, e todos uivaram de desespero. Muito dentre eles pensaram em sublevar-se contra a autoridade do rei, se este não lhes presenteasse a apetitosa carne do animal de orelhas compridas. 


* * *


Transcorreram segundos após a admissão do burro na Assembléia; o silêncio voltou a reinar. Então, o leão tomou a palavra e disse:


- Senhores. Nós, o leão, o rei da selva e de todos os animais, ordenamos que todos os presentes confessem suas culpas e pecados diante de nós, porque hoje é o dia da justiça. Nós, como pai do povo, devemos depurar nossa pátria, a selva, de todos os traidores e agitadores contra a ordem e a autoridade.


Fez uma pausa para recordar os conselhos que a raposa, o urso e o lobo lhe deram durante o dia e, em seguida, continuou:


- Nosso reino deve ser de paz e justiça e, para que assim o seja, exigimos uma confissão geral e pública para poder julgar a todos com toda a imparcialidade, segundo nossa multiforme autoridade. Aproxima-te, tigre, e confessa publicamente seus pecados e, visto que és o mais poderoso depois de mim, deves dar o bom exemplo a nosso povo.


Pausa.


Levantou-se o tigre, deu alguns passos, parou no meio dos membros da Assembléia e falou:


- Minha culpa... Confesso, senhor, que matei e devorei dez homens, vinte cavalos, cinqüenta touros, mil carneiros e ovelhas, sem contar outros animais pequenos, cujo número é incalculável. A fome, senhor leão, a fome é uma má conselheira.


- Muito bem – respondeu o leão – eu te absorvo porque a fome às vezes nos obriga a esquecer os mandamentos. Que se aproxime outro penitente.


Assim, todos desfilaram, um a um, diante do confessor, e todos tinham matado, roubado, traído por fome, e foram absolvidos.


Por fim, chegou a vez do burro. O coitado tartamudeava de medo, mas conseguiu dizer:


- Eu, senhor leão, nunca matei, nunca roubei nada de ninguém porque, como Vossa Majestade sabe, eu sou vegetariano e herbívoro; por isso, não me lembro de ter cometido um pecado, exceto alguns coices que dei em alguns cachorros que me molestavam; porém, não cheguei a matar nenhum. Dei também um coice em um dos meus amos que era cruel comigo, mas não o machuquei muito porque estava longe do meu alcance e apenas lhe rocei a coxa.


- Hummm – fez o leão. – Tu estás aqui para confessar as tuas culpas e não para justificá-las. Nestes casos, o que vale é a intenção. Tu deste a patada no teu amo com a intenção de matá-lo, mas, como estava fora do teu alcance, não o conseguiste. Este é um delito grave, uma tentativa de assassinato, senhor de orelhas compridas.


- Arrependo-me, senhor, e prometo que isto não voltará a acontecer.


- E que mais?


O burro calou-se por um momento, como que examinando sua consciência, e continuou:


- Senhor, nunca estudei leis nem teologia e não sei se o que vou confessar é um pecado. Um dia eu ia carregando e quase desfalecendo de fome, ao passar perto de um trigal ainda fresco, lancei o olhar sobre uma plantinha tenra de trigo e, com uma lambida seguida de uma dentada, arranquei-a pelas raízes; o mais grave do caso é que o trigal pertencia ao convento de São Pedro.


Quando o burro disse isto, ouviu-se na Assembléia um demorado “Haaaaaaaa”...


Todos os animais ulularam ao mesmo tempo, como se a lei da gravitação tivesse desaparecido e o mundo chegasse ao seu fim numa imensa desagregação.


O lobo uivou:


- Anátema!


- Anátema! – repetiram todos.


O leão se levantou enfurecido e rugiu:


- Animal de orelhas compridas: em minha vida nunca ouvi tamanha profanação. Muitas vezes tenho pensado detidamente e averiguado o motivo por que Deus se enfureceu contra nós e não consegui sequer imaginá-lo. Agora já compreendo o porquê e a causa de todas as nossas desgraças. Todo delito pode ser perdoado, porém o de roubar o convento de São Pedro – e um pé de trigo fresquinho!...  – Isto não tem perdão! Pelo contrário, merece pena de morte.


E, antes que terminasse seu discurso, ouviu-se um craque em toda a selva. O leão, com uma pancada com a garra, triturou o crânio do burro ladrão. 


* * *


Pausa...


Em seguida, o narrador continuou:


- Contou-me o rouxinol que todos os vizinhos da selva fugiram e, atualmente, os carniceiros se devoram entre si.


* * *


Olhei para meu companheiro e ia dirigir-lhe uma pergunta, mas o deparei meditando, com os olhos fechados...


Então engoli a pergunta e também meditei...





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